O Brasil já ultrapassou a meta global de aumento da produção de alimentos projetada para 2050, mas isso não significa que o trabalho esteja concluído. Para o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Jorge Meza, o desafio agora é transformar os sistemas agroalimentares para garantir que os alimentos cheguem a quem precisa de forma sustentável.
A avaliação foi feita durante palestra promovida pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA).
Segundo Meza, a meta definida pela FAO previa um aumento de 70% na produção mundial de alimentos, tomando como base 2005, para atender ao crescimento da população global até 2050. No caso brasileiro, esse objetivo já foi superado.
“Entre 2005 e 2025, o crescimento da produção de grãos no Brasil foi de cerca de 120%, muito além daquilo que tinha sido planejado”, afirmou. Ele ressaltou ainda que o país também ampliou sua capacidade de exportação, reforçando sua contribuição para a segurança alimentar mundial.
Apesar do desempenho brasileiro, Meza destacou que a discussão mundial deixou de estar centrada apenas no aumento da produção.
Segundo ele, o mundo produz alimentos suficientes para abastecer toda a população, mas ainda convive com milhões de pessoas em situação de fome. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas com sobrepeso e obesidade, reflexo de problemas relacionados ao acesso, à qualidade da alimentação e ao desperdício.
“O esforço agora é transformar o sistema agroalimentar”, afirmou. Para o representante da FAO, essa transformação envolve todos os elos da cadeia, desde a pesquisa, produção e transporte até a indústria, o varejo, os consumidores e a gestão das perdas e desperdícios de alimentos.
Entre os desafios citados por Meza estão a degradação dos solos, a concentração da produção em poucas culturas, as perdas de alimentos durante a cadeia produtiva e o desperdício no consumo, além da necessidade de ampliar práticas agrícolas mais sustentáveis.
Na avaliação do representante da FAO, o Brasil continuará sendo peça-chave para o abastecimento global de alimentos.
“Não poderíamos pensar, neste momento, o Brasil deixando de cumprir esse esforço constante de colocar mais alimentos no mercado”, disse.
Segundo ele, qualquer instabilidade relevante na produção brasileira, seja por eventos climáticos extremos ou dificuldades de acesso a insumos, pode provocar impactos sobre a oferta mundial e influenciar os preços internacionais dos alimentos.
Além da produção, Meza dedicou parte da palestra à imagem do agronegócio brasileiro. Embora reconheça que o país seja internacionalmente visto como uma potência agroalimentar, ele considera que ainda há espaço para comunicar melhor os avanços ambientais e sociais da atividade.
“O Brasil tem muito para mostrar de uma nova agricultura, com preocupação social e ambiental”, afirmou.
Na avaliação dele, o setor deve ocupar de forma mais ativa as discussões internacionais sobre mudanças climáticas, biodiversidade e desenvolvimento sustentável, levando dados e evidências científicas para fortalecer sua credibilidade.
Como um dos caminhos para fortalecer essa comunicação, Meza sugeriu que o Brasil lidere um debate internacional para a criação de indicadores padronizados sobre sustentabilidade na agropecuária.
A proposta prevê a construção de uma metodologia reconhecida globalmente para medir aspectos como emissões de carbono, conservação ambiental, uso de bioinsumos e redução do desmatamento. Segundo ele, métricas aceitas internacionalmente ajudariam a reduzir questionamentos sobre a produção brasileira e dariam mais transparência às discussões.
“Tendo isso, quem poderia falar o contrário contra o produto Brasil?”, questionou, ao defender que a narrativa sobre o agro seja construída com base em evidências científicas e dados consolidados.
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