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Desenvolvimento também nasce do que a sociedade descarta


Há um dado que merece nossa profunda reflexão: o Brasil recicla apenas 2,2% dos resíduos sólidos urbanos que produz. Menos de 3% de tudo o que consumimos e descartamos retorna à cadeia produtiva. O número impressiona e revela quanto o país ainda desperdiça uma oportunidade de gerar emprego, renda, reduzir gastos públicos e preservar o meio ambiente.

A reciclagem precisa entrar definitivamente na agenda das políticas públicas. Ela não pode depender apenas da boa vontade de quem separa o lixo em casa nem do esforço diário e, muitas vezes, solitário dos catadores. Prefeitos, vereadores, deputados e gestores precisam incentivar a coleta seletiva, fortalecer associações e cooperativas, ampliar a educação ambiental nas escolas e buscar recursos para desenvolver toda a cadeia.

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabelece a meta ambiciosa de recuperar cerca de metade dos resíduos urbanos até 2040. Isso demonstra que transformar lixo em riqueza virou uma necessidade. É aqui que entra a economia circular: um modelo que substitui o hábito de “extrair, produzir e descartar” por um ciclo inteligente, onde o resíduo de hoje se transforma na matéria-prima de amanhã.

Em Mato Grosso, esse potencial é imenso. Pesquisa do Sebrae MT em 2025 aponta que as cooperativas locais reciclam, juntas, cerca de 620 toneladas de materiais por mês. O levantamento, contudo, revela um gargalo: apenas 21% delas possuem contratos formais com prefeituras ou empresas, evidenciando a urgência de estruturar o setor.

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Cáceres nos dá um bom exemplo de que é possível mudar essa realidade. A Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Cáceres (Ascarc), que também atende Campos de Júlio e Conquista d’Oeste, recolhe, em Cáceres, uma média de 160 toneladas de materiais recicláveis por mês. Reunindo cerca de 100 associados e mais de 50 catadores autônomos, o trabalho da Ascarc – reconhecido como de utilidade pública municipal e estadual – demonstra que investir na reciclagem é gerar inclusão social e dignidade às comunidades envolvidas.

Para que esses exemplos se multipliquem, o ciclo 2026 da Lei de Incentivo à Reciclagem, aberto pelo Governo Federal, surge como oportunidade concreta. O mecanismo permite que municípios e cooperativas apresentem projetos para modernizar estruturas, adquirir equipamentos e ampliar a coleta.

Afinal, por trás de qualquer recurso, estão as pessoas que fazem a engrenagem girar. Os catadores prestam um serviço essencial à saúde pública, mas ainda recebem pouco reconhecimento. Valorizá-los significa oferecer condições dignas de trabalho, segurança e remuneração justa, além de incentivar uma cultura em que separar corretamente os resíduos seja um hábito que protege o meio ambiente e o futuro das próximas gerações.

Desenvolvimento sustentável não é apenas produzir mais. É produzir melhor, desperdiçar menos e criar oportunidades para quem transforma o descarte em sustento. Mato Grosso já consolidou sua liderança histórica na produção agropecuária. Agora, tem a oportunidade de se tornar também uma referência nacional em economia circular.”

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*Irajá Lacerda é ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária e ex-presidente da Comissão de Direito Agrário da OAB-MT

agro.mt

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