As mulheres estão cada vez mais ativas no campo, mas ainda enfrentam barreiras que limitam seu potencial de atuação no setor. É o que confirma o estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, liderado pela Fundação IDH, no âmbito do Fundo AGRI3.
O diagnóstico aponta que a disparidade salarial, o acesso restrito à terra e a baixa representatividade em cargos de liderança e espaços de discussão ainda barram o avanço feminino na área.
A análise mostrou que das 5,07 milhões de propriedades rurais no Brasil, 19% (947.000) são geridas por mulheres. No entanto, essas gestoras controlam apenas 8,5% da área rural total do país (cerca de 30 milhões de hectares), com uma concentração de mulheres em propriedades menores, muitas vezes herdadas ou de agricultura familiar.
O relatório analisa o papel feminino em seis cadeias produtivas estratégicas: soja, cana-de-açúcar, citros, cacau, café e pecuária, principais pautas do agronegócio do país.
Embora a presença feminina tenha crescido em todos os setores, a pecuária se destaca como o principal motor dessa mudança: entre 2006 e 2017, o número de mulheres à frente de fazendas de gado saltou 55%, totalizando 450.700 gestoras. Nessas propriedades, 60% delas atuam em estratégias reprodutivas e 56% no manejo da saúde animal, sendo que em 33% das propriedades são elas que lideram toda a operação.
O desempenho nos demais setores apresenta realidades distintas de ocupação e liderança:
Para além dos desafios, o relatório mostra um impacto qualitativo: propriedades lideradas por mulheres tendem a ser mais humanizadas e sustentáveis. Elas se consolidam como “campeãs de inovação”, priorizando a responsabilidade social e técnicas avançadas de conservação do solo.
O relatório identifica seis “temas materiais” que se impõem como barreiras críticas à inclusão de gênero, começando pela sucessão familiar, onde normas culturais ainda privilegiam herdeiros homens.
O cenário de invisibilidade se estende ao mercado de trabalho. Reduzidas ao papel de “ajudantes”, as responsabilidades assumidas pelas mulheres se traduzem em remuneração inferior. Na soja, por exemplo, o percentual de homens que ganham acima de três salários-mínimos é quase o dobro do feminino.
A desigualdade é reforçada pela dificuldade de acesso: a escassez de títulos de terra em nome próprio bloqueia o crédito bancário necessário para a autonomia. Como resultado, a liderança feminina permanece restrita.
No setor de cana-de-açúcar, as agricultoras ocupam apenas 5,4% dos postos de comando, mas a representação política e setorial segue deficitária, principalmente no quadro de cooperativas, perpetuando o ciclo de exclusão nas instâncias de decisão.
“Fechar as lacunas de gênero no agronegócio brasileiro é tanto um imperativo moral quanto uma alavanca para a resiliência econômica e ambiental”, conclui Luiz Almeida, à frente do levantamento da Fundação IDH.
O estudo conclui que ampliar as oportunidades para as mulheres no agronegócio não é apenas uma questão de equidade, mas uma estratégia essencial para elevar a produtividade, impulsionar a inovação e fortalecer a resiliência do setor diante dos desafios climáticos e econômicos.
Entre as principais recomendações está a criação de mecanismos financeiros mais inclusivos, que ampliem o acesso ao crédito sem exigir, necessariamente, títulos de propriedade da terra como garantia.
O relatório também defende a adoção de políticas de compras inclusivas, que valorizem e priorizem produtos provenientes de propriedades lideradas por mulheres, além da oferta de programas de capacitação técnica e de desenvolvimento de lideranças adaptados à realidade feminina no meio rural, com horários flexíveis e atenção às demandas relacionadas ao cuidado com os filhos.
Outras medidas propostas incluem a criação de redes de mentoria e intercâmbio de experiências entre lideranças femininas, a implementação de políticas de transparência salarial e auditorias para eliminar diferenças de remuneração em funções equivalentes.
Além disso, recomenda o estabelecimento de canais seguros e anônimos para denúncias de assédio moral e sexual e investimentos em infraestrutura de apoio, como creches e escolas em tempo integral, capazes de reduzir a sobrecarga doméstica que ainda limita a participação das mulheres no mercado de trabalho rural.
O estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro” foi embasado em uma revisão da literatura existente, a partir da qual foi possível construir o panorama atual. Para acessá-lo na íntegra, clique aqui.
O post Mulheres gerenciam 30 milhões de hectares no Brasil, mas têm menos acesso a crédito que homens apareceu primeiro em Canal Rural.
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