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O Brasil precisa voltar a discutir estoques públicos de alimentos


Durante muito tempo, falar em estoque público de alimentos parecia assunto ultrapassado. O Brasil produzia bem, exportava cada vez mais e a sensação era de que sempre haveria comida suficiente. Mas o cenário mudou.

Hoje, muitos produtores rurais estão reduzindo o uso de fertilizantes simplesmente porque o crédito não chega mais com facilidade. Em várias regiões, o agricultor já faz conta para decidir onde cortar custo e sobreviver à próxima safra. E quando o campo reduz investimento em adubação, tecnologia e manejo, normalmente a consequência aparece depois: produtividade menor e maior risco de quebra.

Isso acontece justamente em um momento delicado para a agricultura mundial.

Com El Niño ou sem El Niño, os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Secas prolongadas, excesso de chuva, geadas fora de época e ondas de calor estão afetando safras em várias partes do mundo. A previsibilidade climática, tão importante para quem produz alimentos, ficou muito menor.

Ao mesmo tempo, guerras continuam pressionando energia, fertilizantes, logística e custos globais. Basta lembrar o que aconteceu nos últimos anos para perceber como rapidamente o abastecimento pode entrar em tensão quando há conflito internacional ou crise econômica.

Existe ainda outro ponto que pouca gente gosta de discutir, mas que precisa ser encarado com seriedade. Diversos cientistas e organismos internacionais alertam que uma nova pandemia global pode surgir a qualquer momento. A pandemia da COVID-19 deixou claro como cadeias de abastecimento podem ser interrompidas em poucos dias.

Diante desse cenário, o Brasil precisa voltar a discutir segurança alimentar de forma prática e estratégica.

E isso inclui a retomada de estoques públicos de alimentos.

Não se trata de interferir no mercado ou substituir a iniciativa privada. Trata-se de criar mecanismos mínimos de proteção para momentos de crise, evitando desabastecimento, explosões de preços e insegurança alimentar.

Grandes países fazem isso há décadas.

A China mantém enormes estoques estratégicos. A Índia trabalha fortemente com armazenamento público para garantir abastecimento interno. Os Estados Unidos possuem políticas permanentes de proteção agrícola e alimentar. Nenhuma potência trata comida apenas como mercadoria comum.

O Brasil, apesar de ser uma das maiores potências agrícolas do planeta, abandonou boa parte dessa discussão.

E existe um detalhe importante: produzir muito não significa automaticamente garantir abastecimento estável. Sem planejamento estratégico, até países altamente produtivos ficam vulneráveis a choques climáticos, crises econômicas ou problemas logísticos.

Por isso, talvez tenha chegado a hora de recolocar o tema no centro do debate nacional.

Discutir estoques reguladores modernos, transparentes e técnicos para alimentos essenciais como arroz, feijão, milho e trigo não é retrocesso. É prudência.

Porque o mundo está ficando mais instável.

E segurança alimentar não é apenas uma pauta do agro. É uma questão de soberania nacional.

*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional


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agro.mt

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