A poucos meses do início da safra 2026/27, produtores rurais de Mato Grosso relatam um cenário de preocupação com os custos de produção, a rentabilidade da soja e o aumento do endividamento no campo. A alta dos fertilizantes e as incertezas do mercado têm levado agricultores a rever investimentos e a adotar cautela no planejamento da próxima temporada.
Em Ipiranga do Norte, no médio-norte mato-grossense, a família do empresário e produtor rural Ari Paulo Geller cultiva 700 hectares de soja. Com mais de quatro décadas de experiência na atividade, ele afirma que o momento é de insegurança.
Segundo Geller, a dificuldade para projetar os resultados da próxima safra é maior do que em outros períodos de instabilidade já enfrentados pelo setor. “O agricultor está com a cabeça em um túnel e o túnel está no escuro. No passado a gente enxergava lá na frente uma luz, hoje tu está caminhando no escuro tentando decifrar onde é que está essa luz”.
Ao analisar custos, despesas e perspectivas de receita, o produtor diz ao Patrulheiro Agro que a conta tem ficado cada vez mais apertada. “Você tem que ter os pés no chão com muita vontade e tem que ter um amor muito grande a Deus para você não desistir”.
A preocupação não se limita à propriedade da família. Conforme Geller, a realidade tem sido semelhante para muitos agricultores da região, especialmente aqueles que trabalham em áreas arrendadas.
Ele explica que os custos com sementes e fertilizantes continuam elevados, enquanto fatores como clima e oscilações de mercado aumentam os riscos. Além disso, a dificuldade para travar negociações futuras amplia a insegurança sobre a rentabilidade da próxima safra.
Com 60 anos de idade e desde os 12 trabalhando na agricultura, o produtor afirma que os números atuais preocupam. “Quando sento e coloco na planilha de custos toda a despesa da atual realidade que estamos vivendo, eu fecho a planilha de custos e pergunto: será que vale a pena? E, por outro lado, me pergunto se não valer a pena a gente vai fazer o que?”.
Ele ressalta que as margens estão cada vez mais próximas do prejuízo. “O custo não fecha e se fecha é muito próximo do vermelho e quando você trabalha muito próximo do vermelho a tendência em cair para o vermelho é mais fácil do que ficar no azul”, diz ao programa do Canal Rural Mato Grosso.
Para Geller, o momento exige cautela para evitar comprometer ainda mais a saúde financeira das propriedades. “O agronegócio alimenta o Brasil e o mundo e hoje o agronegócio pede socorro”.
A situação também preocupa o presidente do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, Éder Ferreira Bueno. O município deve cultivar cerca de 235 mil hectares de soja na safra 2026/27 e aproximadamente 50% dos insumos já foram adquiridos pelos produtores.
De acordo com ele, há agricultores que compraram todos os fertilizantes necessários para a próxima temporada, enquanto outros ainda não adquiriram nenhum volume diante das incertezas do mercado.
Bueno destaca que os fertilizantes representam atualmente cerca de metade dos custos da lavoura e que o cenário internacional tem aumentado a apreensão dos produtores. “Você vê que tem áreas perdendo em outros estados, em outros países, a própria questão da guerra, mas você não vê uma reação do mercado”.
Ele também avalia que a valorização do real frente ao dólar não tem gerado benefícios suficientes para o setor. “O produtor rural sempre compra no dólar alto e vende no dólar baixo, acaba ficando sempre complicado a situação”.
O presidente do sindicato comenta ainda que o aumento nos preços dos fertilizantes em relação à safra passada tem impactado diretamente o planejamento da próxima temporada. “A safra passada tiveram fertilizantes que compramos em torno de US$ 360, US$ 380, esse ano temos um custo de US$ 600 a mesma formulação”.
Para ele, a elevação dos custos torna inviável manter os mesmos níveis de adubação. “Vai aumentar aí 20%, 30% do custo de fertilizantes, é inviável. Hoje é inviável nos preços atuais você plantar soja”.
Em Sorriso, outro importante polo produtor de grãos de Mato Grosso, a preocupação também envolve o endividamento rural. O setor acompanha a tramitação do Projeto de Lei 5.122/2023, que prevê mecanismos para renegociação e alongamento das dívidas dos produtores.
Presidente do Sindicato Rural de Sorriso, Diogo Damiani afirma que os custos para a safra 2026/27 seguem elevados e que os reflexos da geopolítica mundial continuam pressionando o mercado de fertilizantes.
“Nós já estamos no pé da safra 26/27. Algumas coisas já avançaram, outras não, e esse custo de produção para a próxima safra está elevado. Essa questão da geopolítica e essa guerra aí reflete aqui”.
Segundo ele, as condições de negociação dos insumos também mudaram nos últimos anos. “Hoje uma troca de fertilizante no momento está praticamente uma compra à vista”.
Damiani ressalta que entidades do setor vêm cobrando medidas emergenciais para ajudar os produtores a atravessar o momento de dificuldade. Conforme ele, foram encaminhados diversos ofícios ao Ministério da Agricultura em conjunto com entidades representativas do agro mato-grossense.
“O produtor vem pós-pandemia de anos com uma redução drástica com relação aos preços e também o aumento do custo de produção, o que acabou prejudicando o produtor e diminuindo a margem dele principalmente para o pagamento dessas dívidas”.
Para o presidente do sindicato, é necessário acelerar a tramitação das propostas voltadas ao crédito rural. “Precisa agora que o Congresso, o Senado e o Ministério entendam e deem andamento urgente nesse projeto de lei para que a gente possa ter um fôlego para os próximos anos, o produtor conseguir respirar”.
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O post “O agro pede socorro”: agricultores de MT relatam crise, dívidas e medo da próxima safra apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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