O mercado agropecuário global virou palco de um verdadeiro teatro geopolítico. Narrativas barulhentas tentam camuflar a realidade dos números.
Donald Trump anunciou um entendimento onde a China faria compras massivas de soja americana. O discurso também prometia a liberação de centenas de frigoríficos dos EUA.
O otimismo político esbarrou na lógica econômica e nos limites físicos da produção.
O mercado financeiro não compra discursos: a queda em Chicago desmascarou o blefe político.
Pela lei básica do mercado, o anúncio de uma explosão na demanda deveria fazer os preços dispararem. O que o mundo assistiu foi o oposto.
Os preços futuros da soja despencaram forte logo após o anúncio e continuam caindo. Os investidores operaram com fluxos reais e ignoraram as promessas de palanque.
A queda livre provou a frustração do mercado com a total ausência de contratos substanciais.
Existe um fator geopolítico central que os analistas mais atentos não ignoram. A China jamais depositará a estabilidade do seu abastecimento nas mãos dos americanos.
Pequim traz cicatrizes das guerras tarifárias e sabe o risco de depender de Washington. O governo chinês usa promessas apenas como moeda de troca diplomática.
Na prática, o porto seguro dos chineses continua sendo o Brasil, que oferece escala e estabilidade.
O ápice dessa desconexão ocorre no setor de proteínas animais. Celebrar a liberação de dezenas de plantas americanas para exportar carne chega a ser irônico.
Os Estados Unidos simplesmente não têm carne para entregar ao mercado chinês. Castigado por secas severas, o rebanho bovino norte-americano desabou.
A crise de oferta interna é tão severa que os EUA precisam comprar mais carne do Brasil.
O anúncio chinês abre as portas para frigoríficos americanos que operam hoje no vazio. Não há bois para atender essa nova demanda externa.
A política pode criar manchetes e ilusões momentâneas para o público. Porém, a capacidade real de entrega é o que dita o ritmo da economia.
Nesse cenário de verdades concretas e volume físico, o Brasil segue imbatível, inclusive a Conab está prevendo uma supersafra histórica de soja no Brasil em 2026.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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