MT-499 vira motivo de revolta em Mato Grosso

A MT-499, em Paranatinga, se tornou motivo de revolta para produtores rurais e moradores da zona rural em plena colheita da soja. A estrada mato-grossense, principal rota de acesso a propriedades e responsável pelo escoamento da produção, enfrenta atoleiros, trechos estreitos e pontos considerados perigosos, agravados pelo período chuvoso.

O agricultor Fernando Petri Valdameri acompanha com apreensão o avanço da safra e as dificuldades enfrentadas fora da porteira. Nesta safra, ele cultivou 750 hectares de soja e já tem cerca de 250 hectares prontos para a colheita. O excesso de chuva, segundo ele, mudou o cenário da lavoura e aumentou a preocupação com a retirada da produção.

“Faltou chuva no começo e agora virou só água. Está com uma acumulação de 1,8 mil milímetros. Gira em torno de 2,2 mil, 2,4 mil o histórico de chuva, e essa soja chegando agora fico um pouco apreensivo em relação a essa colheita, fica preocupante porque já tem mais de 20 dias que não para de chover”, diz ao Patrulheiro Agro.

Apesar da expectativa de iniciar a colheita, ele afirma que o maior receio está nas condições da estrada. Conforme relata, a situação tem impactado diretamente a rotina de quem depende da via. “Tem uma empresa que ganhou a licitação para manter a manutenção dela, chega agora na época da chuva o cara está mexendo, passou a seca inteira sem mexer, isso aqui não tem condição”.

Além das dificuldades para os caminhões, o produtor destaca que a precariedade afeta toda a comunidade, inclusive o transporte escolar. “Estamos sofrendo aqui já tem mais de mês com atoleiro, arrastando caminhão, arrastando ônibus escolar, com as crianças correndo risco dentro do ônibus escolar. O ano passado tivemos aqui cinco quilômetros e sete pontos de atoleiros e esse ano vai ser a mesma coisa”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Prejuízos e dificuldades no escoamento

A falta de condições adequadas da estrada em Paranatinga já trouxe prejuízos diretos ao produtor. De acordo com Fernando, na safra passada parte da produção foi perdida porque não conseguiu ser retirada a tempo. “O ano passado perdi bastante soja por não conseguir escoar. Eu perdi em torno de umas oito mil sacas por não ter estrada para poder tirar, ficou sete dias trancada a estrada aqui e não consegui tirar a safra aí acabou apodrecendo soja na lavoura”, lembra em entrevista ao Canal Rural Mato Grosso.

A realidade é semelhante para outros produtores que dependem da MT-499. Fábio Sulis, que cultivou 420 hectares de soja nesta safra em Paranatinga, afirma que a falta de infraestrutura é um problema antigo e persistente. Morador da região há 21 anos, ele diz que nunca viu melhorias suficientes. “Os 21 anos até hoje nunca teve estrada, cada vez pior. O pessoal precisa tirar a colheita, a plantação deles e não está conseguindo tirar. Precisa de estrada”.

Ele ressalta ainda que as condições da via dificultam o tráfego e aumentam o risco de acidentes, principalmente devido à largura limitada em alguns trechos. “E outra é uma via só, e aí como é que faz? Como é que faz um caminhão vindo de lá para cá e outro indo daqui para lá? Daqui para lá você não enxerga quem está vindo, aí os caminhões se encontram não tem como dar lado um para o outro para passar dois caminhões ficam ali ilhado”.

Os impactos também recaem sobre os caminhoneiros, que enfrentam aumento nos custos e riscos constantes. O motorista Uender Oliveira de Souza relata que a manutenção dos veículos tem pesado no bolso. “Vai tudo em despesa. Pneu, mola, balança, manutenção muito cara. A estrada não ajuda. Se for do jeito que está a gente nem entra, se entrar é perigoso tombar”. Conforme ele, a situação piorou nos últimos anos, tornando o transporte ainda mais difícil.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Risco para estudantes e famílias

Além dos prejuízos econômicos, a situação da estrada compromete o acesso dos estudantes às escolas de Paranatinga. A estudante Isabela de Assis Pereira conta que já enfrentou atrasos e situações de risco durante o trajeto. “A gente ficou atolado já umas meia hora, uma hora. A sorte é que a gente estava perto de uma fazenda e aí chamaram o pessoal para tirar a gente”, conta ao Canal Rural Mato Grosso.

Ela afirma que, em alguns períodos, a precariedade da estrada impede a frequência regular às aulas.“Ano passado a gente já ficou uma semana em casa por causa disso. [Esse ano] uns dois, três dias”. A insegurança também gera preocupação com o futuro. “Eu fico um pouco insegura. Até posso reprovar por causa disso, não aprender direito. Meu maior sonho é arrumar a estrada”.

Para os pais, a angústia acompanha cada viagem. A cozinheira Maria Ribeiro Duarte relata o medo constante ao esperar o retorno dos filhos. “[O coração] fica muito apertado. A gente só vê sossego quando vê chegando. Muito ruim a estrada, tem muita carreta atolada e fica muito complicado”.

Leila Márcia Vila de Souza reforça que o problema afeta diversos estudantes da zona rural e prejudica o aprendizado. “Estão em 21 alunos esse ano no transporte escolar. Por serem da zona rural, o aluno já sai prejudicado. Tem dias que não vem, tem dias que atola, os pais que tem que dar suporte”. Conforme a cozinheira, a situação se repete há anos e ainda não houve solução definitiva. “Não é o primeiro ano. A gente já está aqui há bastante tempo e a gente vem lutando. Realmente é muito difícil, muito difícil. Está uma situação insustentável”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Trechos críticos e risco de acidentes

Em alguns pontos da MT-449, em Paranatinga, foram abertas valetas laterais com o objetivo de facilitar o escoamento da água da chuva. No entanto, produtores afirmam que a medida aumentou o risco de acidentes, especialmente em trechos estreitos, onde caminhões e ônibus circulam com dificuldade.

O presidente do Sindicato Rural de Paranatinga, Carlinhos Rodrigues, explica que a situação preocupa produtores e transportadores. “Infelizmente se for um caminhão carregado, a chance dele tombar é muito grande, e risco mais uma vez sobra para quem trabalha, para o produtor, para o caminhoneiro”.

Ele também alerta que o período mais intenso da colheita ainda está por começar e que a estrada pode não suportar o fluxo necessário. “Praticamente estão todas por vir e na situação dessa daqui, qualquer um que tenha um bom conhecimento mínimo, já sabe que isso aqui não vai comportar, o problema é grande, é eminente”.

Enquanto aguardam melhorias, produtores e moradores seguem enfrentando dificuldades diárias. A cobrança é por uma estrada que garanta condições mínimas de segurança, acesso e escoamento da produção.

“Queremos uma estrada melhor para os nossos filhos ir para a escola com segurança”, pontua Maria Ribeiro Duarte.

A estudante Isabela reforça o pedido. “Nós queremos uma estrada melhor para estudar…”.

Já Leila Márcia Vila de Souza faz um alerta sobre a gravidade da situação. “A gente vai esperar um ônibus desse tombar com as crianças dentro para ver, esperar uma tragédia acontecer para alguém tomar uma atitude?”.

Em nota, a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfa-MT), informa que “há um projeto de pavimentação em análise. Um levantamento técnico está sendo realizado para verificar a viabilizada de licitação de um Plano Anual de Trabalho”.

agro.mt

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