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Soja parada e prejuízo rodando: o desastre logístico da fila de caminhões de Miritituba


Foto: Divulgação Famato

Há décadas acompanho o agro brasileiro. Vi o produtor sair da enxada para o GPS, da semente comum à biotecnologia de ponta. Hoje operamos com máquinas milionárias, drones e gestão por satélite. Da porteira para dentro, somos referência mundial.

Mas basta olhar para Miritituba, no Pará, para entender onde o Brasil trava. No principal ponto de transbordo do Arco Norte, a soja que sai do Mato Grosso encontra um funil. A BR-163 chega; a estrutura não acompanha. Faltam pátios, organização, capacidade operacional. O resultado são filas intermináveis e caminhões parados por dias.

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Isso não é trânsito. É o custo Brasil em estado bruto. Cada hora parada encarece o frete. Cada dia de fila corria à margem. O grão perde qualidade. O navio espera e cobra demurrage. E a conta recai sobre produtor, exportador e, no fim, sobre o país.

O mais grave: nada disso é surpresa. A safra cresce há anos. O Arco Norte foi anunciado como solução estratégica. Mas asfaltou-se a estrada sem estruturar o destino. Faltou planejamento integrado. Faltou coordenação. Faltou decisão.

Projetos como a Ferrogrão seguem presos a impasses políticos e jurídicos. Enquanto isso, insistimos em resolver uma equação continental apenas com caminhões. Uma barcaça substitui dezenas deles. Um trem substituiria centenas. Mas seguimos queimando diesel e tempo.

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O Brasil produz como gigante e transporta como amador. Num mercado global apertado, poucos dólares no custo logístico decidem contratos. Some-se juros altos, câmbio volátil e pressão externa. Dias na lama deixam de ser um problema pontual e viram perda estrutural de competitividade.

O produtor já fez a lição de casa. Investe, assume risco climático, financeiro e político. Da porteira para dentro, eficiência. Da porteira para fora, improviso.

Miritituba não é um caso isolado. É um símbolo. Enquanto a logística continuar sendo tratada como remendo, pagaremos o imposto invisível da ineficiência. O agro já provou que sabe produzir. Está na hora de o Brasil provar que sabe escoar.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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