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Recuperação Judicial é o último fôlego para produtores, diz especialista


A recuperação judicial tem se tornado uma alternativa cada vez mais presente entre produtores rurais que enfrentam dificuldades financeiras. Para o advogado especialista Alisson Giuliano Franco, o instrumento é legítimo e necessário, mas representa o último fôlego de quem já tentou renegociar de diversas formas. “Noventa e nove por cento dos produtores não querem entrar em recuperação judicial”, destacou.

Segundo o especialista, a recuperação judicial funciona como um mecanismo de reestruturação financeira, permitindo que o produtor em crise reorganize suas dívidas e mantenha a atividade produtiva. Entrevistado desta semana do programa Direto ao Ponto, ele lembra que, até 2020, o produtor pessoa física não podia recorrer ao instrumento, direito que passou a ser garantido após decisões judiciais e posterior mudança na lei.

Proteção em momentos de crise

De acordo com Franco, o produtor rural é um empresário “a céu aberto”, sujeito a riscos climáticos e de mercado que fogem ao seu controle. “Os fatores que fazem o produtor entrar em crise não são escolhidos por ele. São fatores climáticos, de preço e tem uma interferência muito grande de mercado”, explicou.

Ele destaca que a recuperação judicial oferece ao produtor a chance de reestruturar as contas, garantindo fôlego para continuar produzindo. “O legislador, quando montou a lei de recuperação judicial, buscou dar condições para a pessoa em crise continuar no mercado. É um plano de reestruturação baseado na realidade do produtor, e não naquilo que o mercado impõe”, observou ao programa do Canal Rural Mato Grosso.

Foto: Canal Rural Mato Grosso

Financiamento e recomeço

Um dos principais questionamentos dos produtores é sobre a possibilidade de financiar novas safras após o pedido de recuperação judicial. Franco esclarece que isso é possível. O recurso inicial vem do próprio fluxo de caixa protegido pela RJ, mas empresas especializadas também podem oferecer crédito.

“Existem empresas que apostam naquele produtor e financiam a operação. Elas se tornam agentes financeiros estratégicos, com preferência de recebimento numa eventual falência”, disse. Segundo ele, há casos em que empresas colocaram até R$ 90 milhões para fomentar produções em recuperação judicial, garantindo que o dinheiro retorne ao campo e mantenha o ciclo produtivo ativo.

Último recurso

Apesar de ser uma ferramenta prevista em lei, o advogado reforça que a recuperação judicial é buscada apenas em situações extremas. “A recuperação é um processo difícil e estressante. Então quando a empresa ou o produtor busca a recuperação judicial é a última linha de decisão dele. É por exclusão”, ressaltou.

Franco também cita que a alta nos custos de produção e o baixo preço das commodities têm pressionado as margens do setor. “Hoje, para pagar o custeio da soja, você tem que produzir no mínimo 65 sacas e vender a R$ 120. A conta não está fechando. Essa realidade faz com que nós estejamos hoje vivenciando um quadro de aumento de recuperações judiciais”, completou.

Foto: Canal Rural Mato Grosso

Além da recuperação judicial, há também instrumentos de negociação fora do Judiciário. “A lei prevê a mediação, que permite que credor e devedor negociem diretamente, com proteção judicial por até 60 dias contra execuções ou penhoras”, explicou o especialista.

Quando essa tentativa de reestruturação não se resolve, o produtor parte, então, para o processo judicial. “Se ele está pedindo ajuda nesse primeiro momento e não há solução, a recuperação judicial passa a ser então quase que obrigatória porque ele já está no estrangulamento financeiro”, concluiu Franco.

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